
Ontem ao assistir o espetáculo "Ten Chi" da Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, saí com a sensação que provavelmente os afortunados que viram jogar ao vivo a equipe do Santos comandada por Pelé tiveram. Espetáculo que nos primeiros três quartos se mostra suave, "alegre" e às vezes beirando o infantil, é um experimento radical de Pina Bausch e sua trupe, onde além da dança, surge o texto. Num clima onírico, a obra se desenvolve entre imagens belas, (e pena) alguns bailarinos esforçando-se ao máximo para demonstrar todo seu virtuosismo, e como se movem perfeitamente - talvez esquecendo o princípio básico que norteava Pina Bausch e que ela perfeitamente definiu na frase "Não me interessa a maneira como as pessoas se movem, mas O QUE as faz mover" - alguns reféns do riso fácil da platéia, solos sem conexão de alma com o todo, alguns esteriótipos da nossa visão ocidental sobre o que é a cultura oriental. . . é como se diante dos nossos olhos tivessemos o maior time de todos os tempos e ele estivesse jogando uma partida irreconhecível. . .mas aí lembro das histórias que ouvia sobre o Pelé, quando todos achavam que ele estava fazendo uma péssima partida, os adversário vinham do lado dele e diziam "é negão, hoje não deu". . .e de repente, nos minutos finais, em duas ou três jogadas geniais ele virava a partida e com gols de placa. . . pois é isso que acontece na segunda metade do segundo ato: personificada na figura do gigante e monumental Dominique Mercy, Pina nos revela que o que vimos até então é o espirito equivocado e entorpecido desse ocidente cada vez mais admirado por si mesmo, é a banalização da troca de experiências, e surge, como uma bomba, o autêntico espírito do Japão - espírito que com seus olhos já contemplou o horror da guerra, da bomba atômica - que chega soberano e avassalador. A partir desse momento o que era superficial torna-se denso,e o mestre Dominique Mercy toma a cena para irradiar para a platéia e companheiros de trupe, o verdadeiro espírito de Pina Bausch, que era, É, e sempre será o dedicar-se com alma e amor a criar um mundo melhor para nós. . .mesmo que tudo não passe de imaginação. . . ou de um sonho. "Ten Chi" não alça vôos como "Café Muller" ou "A Sagração da Primavera", mas isso não importa, o essencial está lá: Pina Bausch.
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